REFLEXÃO DO DIA — Radar PVH · 22/07/2026 O ciclista que subiu a ladeira empurrando ========================================= Fim de tarde, uma ladeira qualquer perto do centro. O calor ainda grudado na pele, o asfalto soltando aquele cheiro morno de dia inteiro batido de sol. Um homem vinha de bicicleta, carregando uma sacola no guidão. No começo da subida, ele pedalou firme. No meio, o pedal travou de tanto esforço, a roda quase parou. Aí ele fez uma coisa simples: desceu. Desceu e passou a empurrar a bicicleta a pé, do lado dela, com calma. Ninguém riu, ninguém buzinou. Ele foi subindo passo a passo, a sacola balançando, até chegar lá em cima. Montou de novo e seguiu. Fiquei pensando naquilo o resto do caminho. A gente cresceu ouvindo que vencer é chegar pedalando, sem parar, sem descer da bike, mostrando força até o topo. Que baixar do selim é fraqueza. Que empurrar é quase desistir. Mas aquele homem chegou. Chegou onde queria chegar. Só que mudou o jeito no meio do trajeto, porque o corpo pediu e a ladeira exigiu. Superar nem sempre é aguentar do mesmo modo até o fim. Às vezes é ter a esperteza de trocar o método sem trocar o rumo. Tem hora que a vida vira ladeira e o jeito que sempre funcionou para de funcionar. O emprego que dava conta não dá mais. A rotina que segurava a casa começa a pesar demais. A força que você tinha aos vinte não é a mesma agora. Aí bate aquela voz teimosa: "tenho que aguentar do mesmo jeito, senão é fracasso". E a gente insiste em pedalar numa subida que já pede outra coisa. Descer da bicicleta não é parar de andar. É reconhecer o terreno e responder a ele. Empurrar também é avançar. Pedir ajuda também é avançar. Fazer mais devagar, também. O que segue igual é a direção. O topo continua lá. O que muda é como você chega até ele — e esse ajuste não tira nenhum mérito da chegada. Quem olha de fora só vê o resultado: você lá em cima. Ninguém vai perguntar se foi pedalando ou empurrando. E, sinceramente, isso importa menos do que a gente pensa. O homem sumiu na esquina de cima, já montado de novo, seguindo em frente como se nada tivesse acontecido. Porque, para ele, nada de mais tinha acontecido mesmo. Ele só fez o que a ladeira pedia. Se a sua subida de hoje está pesada, talvez não seja hora de forçar mais o pedal. Talvez seja hora de descer, respirar, e empurrar do lado — sabendo que o topo continua sendo seu. “Empurrar a bicicleta na ladeira também é subir. Superar é mudar o jeito, sem largar o rumo.” — radarpvh.com.br/reflexao-do-dia Conteúdo de reflexão e bem-estar.