REFLEXÃO DO DIA — Radar PVH · 31/07/2026 O banco de praça que guardou dois nomes ======================================= O banco de madeira ficava na Praça das Três Caixas d'Água, encostado numa árvore que fazia sombra boa no fim da tarde. Ninguém reparava nele, a não ser dois nomes riscados de canivete no encosto, já apagados pelo tempo: um M e um J, feitos por dois moleques uns vinte anos atrás. Naquela sexta, um homem de camisa de trabalho sentou ali só pra descansar as pernas antes do ônibus. Passou o dedo distraído pela madeira e sentiu os sulcos. Sorriu meio sem querer. Ele era o J. De onde estava, viu outro cara atravessando a praça, celular na mão, pressa no passo. Parou. Olhou de novo. O jeito de andar não muda mesmo depois de vinte anos. — Marcelo? O outro virou. Levou um segundo. Depois foi aquele riso que só volta quando a pessoa reconhece alguém que amava e tinha esquecido que amava. Sentaram no banco. Os dois. No mesmo banco de sempre, sem combinar, como se o corpo lembrasse antes da cabeça. Ficaram um tempo só rindo do absurdo de estarem ali. — Você sumiu, cara. — Você que sumiu. E os dois estavam certos. A vida foi levando. Um casou, o outro mudou de bairro, depois de cidade, depois voltou. Os números de telefone trocaram. As desculpas foram se acumulando, dessas pequenas: "depois eu ligo", "semana que vem a gente marca". A semana que vem virou vinte anos. Mas foi só sentarem que o assunto voltou sozinho. Não teve aquela conversa dura de quem precisa se explicar. Teve piada velha, apelido antigo, a lembrança do dia em que quase caíram do muro da escola. A amizade não tinha enferrujado. Tinha só ficado esperando, quietinha, num banco de praça. Lá pelas tantas, o Marcelo passou o dedo nos nomes riscados. — Fomos nós. — Fomos. O ônibus do J passou. Ele deixou passar. Alguns ônibus a gente pode perder. Quando finalmente se levantaram, já era quase noite. Trocaram número — os de agora, os que funcionam. Combinaram um churrasco. E dessa vez marcaram dia, hora, endereço. Sem "depois a gente vê". Antes de irem, o Marcelo olhou pro banco mais uma vez, como quem agradece a um lugar. O banco não disse nada. Banco não fala. Mas tinha guardado dois nomes por vinte anos, esperando o dia em que os donos voltassem a sentar juntos. Amizade verdadeira tem essa teimosia esquisita: some da agenda, mas não some da gente. Fica ali, riscada em algum canto, esperando um encontro de tarde de sexta pra provar que nunca foi embora de verdade. “Amizade verdadeira some da agenda, mas não some da gente. Fica esperando o dia de sentar junto de novo.” — radarpvh.com.br/reflexao-do-dia Conteúdo de reflexão e bem-estar.