REFLEXÃO DO DIA — Radar PVH · 06/08/2026 A chave que ficou na fechadura por três anos ============================================ A casa de esquina ficou fechada por três anos. As folhas do quintal foram se juntando na entrada, e o portão criou aquela cor de ferrugem que parece cansaço. Dentro, na porta da sala, uma chave tinha ficado esquecida na fechadura. Do lado de dentro. Quem saiu por último trancou por fora e foi embora com raiva, e a chave de dentro ficou ali, presa, sem servir mais pra nada. As irmãs não se falavam. Uma morava a duas ruas, a outra do outro lado do rio. A casa era das duas, herança dos pais, mas nenhuma queria entrar sozinha, e juntas era impossível. Então a casa esperou. O reboco começou a soltar. Um cupim descobriu o batente. A goteira que era pequena virou mancha no teto. A casa não sabia de brigas; só sabia que ninguém abria as janelas, e que o ar lá dentro ia ficando velho. Num sábado de manhã, uma das irmãs apareceu no portão. Trouxe a chave de fora, a que abria. Ficou um tempo parada, só olhando. Do outro lado da rua, a outra irmã veio chegando devagar, sem combinar. Se encontraram no meio da calçada, as duas com a mesma intenção meio envergonhada: ver como estava a casa. Nenhuma pediu desculpa com palavras. A mais velha só disse: "tá caindo aos pedaços". A mais nova respondeu: "tá". E riram um pouco, daquele riso que sai quando a gente não sabe o que fazer com o peito apertado. A chave de fora girou. A porta empacou, inchada de umidade, e as duas empurraram juntas com o ombro. Foi preciso força das duas. A porta abriu de uma vez, e elas quase caíram pra dentro, rindo de novo. A chave de dentro, aquela esquecida, tinha enferrujado colada na fechadura. Uma delas tentou tirar. Não saiu. Ficou ali, marca do dia em que a casa foi trancada com mágoa. Mas a porta, agora, estava aberta. Entrou luz, entrou vento, entrou o cheiro de mato do quintal. Elas começaram a abrir as janelas, uma a uma, sem falar muito. O ar velho foi saindo. Perdoar não desenferrujou a chave antiga. Ela continuou lá, torta, sem serventia. Mas ninguém precisa da chave velha quando a porta finalmente cede. A casa ainda tinha goteira, cupim, reboco solto. Muito trabalho pela frente. Só que agora tinha duas pessoas dentro dela, discutindo por onde começar. E discutir por onde começar já é começar. “A chave velha pode continuar torta na fechadura. O que importa é que a porta cedeu.” — radarpvh.com.br/reflexao-do-dia Conteúdo de reflexão e bem-estar.