REFLEXÃO DO DIA — Radar PVH · 16/07/2026 O apito que abre a manhã ======================== São quase seis da manhã e um apito curto rasga o ar. É o carrinho de pão, aquele triciclo com uma buzina de mão que o dono aperta em cada esquina. Priin. Cala. Priin de novo, mais adiante. Eu estava na janela, meio acordado, meio na cama. E fiquei pensando naquele som. Repare: ninguém garantiu ao homem do pão que teria freguês naquela rua. Ele não sabe, ao apertar a buzina, se alguma janela vai abrir. Mesmo assim aperta. Anda mais uns metros e aperta outra vez. Aquilo, no fundo, é otimismo puro. Não o otimismo de frase de calendário, aquele que finge que está tudo lindo. É outro tipo: o de quem levanta antes do sol e sai oferecendo, apostando que a manhã responde. Otimismo de verdade não fecha os olhos para a dificuldade. O homem do pão sabe do preço da farinha, sabe das ruas vazias, sabe dos dias em que volta com o cesto quase cheio. E, ainda assim, aperta a buzina. Continua chamando. É uma teimosia bonita. Uma aposta feita de novo a cada esquina, mesmo sem prova de que vai dar certo. A gente costuma esperar sinal de fora para se animar. Espera a notícia boa, o resultado, a confirmação de que valeu. Mas quem só se anima depois da garantia quase nunca começa nada. Porque garantia, na vida da maioria de nós aqui, é coisa rara. O carrinho de pão faz o contrário. Ele começa antes. Aperta a buzina primeiro, e só depois descobre quem responde. A esperança vai na frente; o resultado vem atrás, quando vem. Uma janela abre. Uma senhora de camisola pede dois franceses e um caseiro. O homem sorri, entrega, guarda o troco. E toca de novo, subindo a rua. De onde eu estava, o som foi ficando menor, mais distante, até virar quase nada. Mas não parou. Foi levando a manhã pra frente, esquina por esquina, aposta por aposta. Tem gente que chama isso de ingenuidade. Achar que alguém vai responder ao chamado. Eu acho que é o que segura o mundo de pé. Se o padeiro esperasse ter certeza antes de sair, a rua ficaria sem pão. Acreditar que o dia vale a pena começar não é fechar os olhos para o que pesa. É apertar a buzina mesmo assim. É oferecer o que se tem antes de saber se vai ser aceito. Hoje é quinta. Porto Velho vai acordar cheia de gente que aperta a própria buzina de manhã, cada um do seu jeito: abre a loja, liga o computador, arruma a mochila da escola, coloca a comida no fogo. Ninguém com certeza nenhuma. Todos apostando. O apito já se perdeu lá longe. Mas o cheiro de pão ficou. E o dia, esse, ainda está inteiro para começar. “Otimismo é apertar a buzina antes de saber quem vai abrir a janela.” — radarpvh.com.br/reflexao-do-dia Conteúdo de reflexão e bem-estar.