REFLEXÃO DO DIA — Radar PVH · 18/07/2026 Carta sobre o caderno que virou despejo ======================================= Prezado leitor, Escrevo para te falar de um caderno. Não é diário de segredos, não tem cadeado, não tem capa bonita. É um caderno de espiral com metade das folhas amassadas, comprado numa papelaria da Sete de Setembro por um preço que já nem lembro. Comecei a usar num período em que minha cabeça parecia uma feira às onze da manhã: muita gente falando ao mesmo tempo, cada preocupação empurrando a outra. À noite eu deitava e as ideias continuavam a gritaria. Nada resolvia, só girava. Um dia peguei esse caderno e resolvi despejar tudo ali. Sem ordem, sem letra bonita, sem começo nem fim. "A conta de luz", "a conversa com meu irmão", "aquilo que falei e não devia". Escrevi como quem esvazia uma sacola sobre a mesa pra ver o que tem dentro. E aconteceu uma coisa curiosa. Quando os pensamentos saíram da cabeça e caíram no papel, eles pararam de crescer. No escuro do quarto, uma preocupação parecia um bicho enorme. Escrita numa linha torta, era só uma frase pequena, do tamanho de uma frase mesmo. Descobri que a cabeça engorda o que guarda. Ela pega um problema simples e passa a noite dando voltas nele, aumentando cada canto. No papel, o problema não engorda. Fica do tamanho que tem. Não te escrevo isso como receita nem como conselho de gente que entende de mente. Entendo de caderno velho, só isso. Te escrevo porque talvez você também ande carregando na cabeça coisas que ficariam menores se tomassem forma fora dela. Às vezes eu releio o que anotei semanas antes. Metade daquilo que me tirava o sono nem lembro mais por que doía tanto. Aquele bicho enorme da terça já era só uma linha esquecida numa página qualquer. E isso me ensina algo sobre o presente: muito do que hoje pesa vai, um dia, virar linha esquecida também. O caderno não conserta a vida. A conta de luz continua chegando, a conversa difícil continua sendo difícil. Mas há diferença entre andar com dez preocupações soltas rolando dentro do crânio e olhar essas dez escritas, enfileiradas, contáveis. O que é contável assusta menos. Hoje o caderno mora na gaveta da cabeceira. Não escrevo todo dia, escrevo quando a feira volta a ficar barulhenta lá dentro. É meu jeito de dizer aos pensamentos: podem sair, tem lugar pra vocês aqui fora. Se um dia você experimentar, não espere frases sábias. Deixe sair torto, sujo, repetido. O caderno aguenta. A folha não julga a letra nem o assunto. Um abraço de quem também precisa esvaziar a sacola de vez em quando, Do seu Radar. “A cabeça engorda o que guarda. No papel, o problema fica do tamanho que tem.” — radarpvh.com.br/reflexao-do-dia Conteúdo de reflexão e bem-estar.