20 de agosto: Dia do Maçom relembra vínculo histórico com a Independência do Brasil
Data foi consolidada pela Maçonaria brasileira em 1957 e remete a uma histórica sessão liderada por Joaquim Gonçalves Ledo. Documentos, porém, indicam que a reunião provavelmente ocorreu em 9 de setembro de 1822, depois do Grito do Ipiranga. Em Rondônia, entidades maçônicas mantêm a tradição com programação especial.

20 de agosto é tradicionalmente celebrado como o Dia do Maçom no Brasil — data consolidada em 1957 pela CMSB e ligada a uma sessão histórica de 1822 liderada por Gonçalves Ledo. Estudos sobre o calendário das atas indicam que a reunião provavelmente ocorreu em 9 de setembro, após o Grito do Ipiranga. Não há lei federal em vigor instituindo a data; em Rondônia, GOB-RO e GOR mantêm a tradição com programação especial.
O 20 de agosto é celebrado há décadas por organizações maçônicas brasileiras como o Dia do Maçom. A data integra calendários e comemorações de diferentes potências e lojas do país e também é lembrada em Rondônia.
A institucionalização da efeméride ganhou força em 1957, durante a V Mesa Redonda das Grandes Lojas do Brasil, realizada em Belém, no Pará. A Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB) registra a escolha do dia 20 de agosto como um dos temas definidos naquele encontro.
A origem simbólica da data, porém, remonta a 1822, em meio ao processo que resultou na separação política entre Brasil e Portugal.
A histórica sessão de Joaquim Gonçalves Ledo

Uma ata do então Grande Oriente Brasílico registra uma sessão realizada no "20º dia do 6º mês do ano da Verdadeira Luz de 5.822".
Na reunião, dirigida por Joaquim Gonçalves Ledo — político, jornalista e importante liderança maçônica da época —, foi apresentada uma defesa enfática da Independência e da consolidação de uma monarquia constitucional sob D. Pedro.
A sessão ocorreu e sua importância histórica não está em dúvida. O que gerou controvérsia durante décadas foi a conversão da data maçônica registrada na ata para o calendário civil.
Em determinadas convenções maçônicas, o ano da chamada Verdadeira Luz é obtido acrescentando-se quatro mil anos ao calendário comum. Por isso, 5.822 corresponde a 1822. A dificuldade está na forma como dias e meses eram contados.
20 de agosto ou 9 de setembro?
Durante muito tempo, a expressão "20º dia do 6º mês" foi interpretada como 20 de agosto de 1822, dando origem à tradição comemorativa.
O historiador maçônico José Castellani, entretanto, sustentou que o calendário empregado pelo Grande Oriente Brasílico naquele período fazia o ano começar em 21 de março. Nessa contagem, o 20º dia do sexto mês corresponde a 9 de setembro de 1822.
O pesquisador Kennyo Ismail chegou inicialmente a considerar possível a interpretação de 20 de agosto, com base no calendário do Rito Moderno de influência francesa. Posteriormente, ao comparar a ata com outros documentos do próprio Grande Oriente Brasílico — especialmente o registro de sua fundação em 17 de junho de 1822 —, concluiu que a interpretação de Castellani era a mais consistente.
O próprio Grande Oriente do Brasil já reconheceu publicamente a existência dessa controvérsia histórica e a possibilidade de a sessão ter ocorrido em 9 de setembro.
Isso muda a participação da Maçonaria na Independência?
Muda a interpretação de um episódio específico, mas não elimina a participação de maçons no processo político da Independência.
Se a sessão de Gonçalves Ledo ocorreu em 9 de setembro, ela não poderia ter provocado diretamente o Grito do Ipiranga, ocorrido dois dias antes.

Os registros oficiais sobre 7 de setembro mostram que D. Pedro recebeu em São Paulo mensagens enviadas do Rio de Janeiro pela princesa Leopoldina e por José Bonifácio, informando sobre as novas decisões das Cortes portuguesas e defendendo uma ruptura política.
A participação maçônica deve, portanto, ser entendida dentro de um processo mais amplo. Joaquim Gonçalves Ledo, José Bonifácio e o próprio D. Pedro estavam ligados à Maçonaria e ocupavam posições importantes nas disputas políticas de 1822.
A sessão dirigida por Ledo permanece relevante porque demonstra que, naquele momento decisivo, integrantes do Grande Oriente Brasílico defendiam formalmente a Independência e a organização do novo Estado brasileiro.
A data é oficial por lei federal?
Não. Até 20 de agosto de 2026, não existe lei federal em vigor que institua o 20 de agosto como Dia Nacional do Maçom.
Um projeto apresentado em 2010 com esse objetivo, o PL 7.810/2010, acabou arquivado.
Em julho de 2026, um novo projeto, o PL 3.483/2026, foi apresentado na Câmara dos Deputados para reconhecer a Maçonaria como Patrimônio Cívico-Social Nacional e instituir o Dia Nacional do Maçom. Na data desta publicação, a proposta ainda está em tramitação.
Isso não impede que o 20 de agosto seja amplamente reconhecido e comemorado pelas organizações maçônicas brasileiras e também por instituições estaduais e municipais.
Em Rondônia, a tradição continua
Em Rondônia, o 20 de agosto integra oficialmente o calendário interno do Grande Oriente de Rondônia (GOR) como feriado maçônico de sua jurisdição.
Já o Grande Oriente do Brasil – Rondônia (GOB-RO) programou para 2026 uma série de atividades em comemoração à data. Entre 17 e 20 de agosto, Porto Velho recebe as Olimpíadas Maçônicas 2026, reunindo integrantes de diferentes lojas e seus familiares em modalidades como xadrez, tênis de mesa, futebol society, dominó e outras competições. A programação comemorativa será encerrada no sábado, 22 de agosto, com o Baile da Harmonia.
Mais de dois séculos depois da Independência, o 20 de agosto permanece como uma data de forte valor simbólico para a Maçonaria brasileira.
A precisão histórica recomenda uma distinção: 20 de agosto é a data tradicional da celebração; a sessão de 1822 que ajudou a inspirá-la provavelmente ocorreu em 9 de setembro. Isso não diminui sua importância — apenas separa a tradição comemorativa do que os documentos hoje permitem afirmar sobre os acontecimentos de 1822.
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