O menino que perdeu no dominó
Numa mesa de calçada, um garoto aprende que saber perder também é um jeito de crescer.
Fim de tarde na calçada, mesa de plástico, quatro cadeiras e o barulho seco das peças de dominó batendo na madeira. O menino tinha uns doze anos e jogava contra o avô, a tia e um vizinho que morava três casas adiante.
Ele era bom. Bom mesmo. Contava as peças de cabeça, sabia quem tinha travado no seis, chutava com precisão o que faltava na mão dos outros. E fazia questão de avisar, a cada rodada: "Já ganhei, já ganhei."
Naquele domingo, dia 19 de julho, ele não ganhou.
A tia armou uma jogada devagar, sem alarde, deixando o menino confiante. Quando ele bateu a peça achando que fechava o jogo, descobriu que tinha entregado a vitória de bandeja. A tia encaixou o último osso com um estalo tranquilo. "Fechei."
O menino ficou vermelho. Empurrou a cadeira, cruzou os braços, disse que o jogo era injusto, que ela tinha tido sorte, que dominó nem é jogo de gente inteligente.
O avô não brigou. Só começou a embaralhar as peças de novo, aquele som de rio revirando pedra no fundo. E disse, sem olhar para ninguém em especial: "Quem só sabe ganhar joga sozinho. Ninguém aguenta."
O menino ficou um tempo emburrado no muro, chutando uma tampinha. De longe, viu a mesa continuar sem ele. Riam de uma jogada, discutiam outra, a tia contava um caso antigo. A vida da calçada seguia, com ou sem o campeão.
Aí ele voltou. Sentou. Não pediu desculpa com palavra — pediu do jeito de menino, embaralhando junto, empurrando as peças pro meio. E na rodada seguinte, quando perdeu de novo, apenas disse: "Boa, tia."
Foi a primeira vez que ele riu perdendo.
Humildade não caiu do céu ali. Ela veio da forma mais comum que existe: alguém melhor do que a gente esperava, num jogo que a gente achava dominar. Acontece na mesa de dominó e acontece na vida — no trabalho que a gente pensava que sabia fazer sozinho, na opinião que a gente jurava certa, no filho que cresce e passa a nos ensinar coisas.
O menino aprendeu que perder para quem senta na mesma mesa não é humilhação. É pertencer. É poder voltar amanhã.
As peças foram guardadas na caixa de sapato quando a luz do poste acendeu. O menino ajudou a dobrar a mesa. E carregou pra dentro, além das cadeiras, uma coisa que não pesa e não se vê, mas que faz caber mais gente do lado da gente.
“Quem só sabe ganhar acaba jogando sozinho. Saber perder é caber mais gente ao lado.”