Onde você estava enquanto estava aqui?
Uma pergunta simples que a gente quase nunca faz: quando a gente está presente de verdade? Uma reflexão sobre estar inteiro no lugar onde o corpo já chegou.
Onde você estava enquanto estava aqui?
Parece pegadinha, mas não é. É que o corpo tem essa mania de chegar antes da cabeça. Você senta pra almoçar, mas a mente já está no problema da tarde. Abraça alguém e, no meio do abraço, lembra da conta que vence sexta. Assiste ao filme com a família e, por dentro, refaz uma conversa que já terminou faz três dias.
Então a pergunta se sustenta: onde você estava enquanto estava ali?
A gente costuma achar que presença é uma questão de tempo. "Passo tempo com meus filhos." Mas dá pra passar uma tarde inteira do lado de alguém e não estar lá nem por cinco minutos. E dá pra estar completamente presente numa conversa de três minutos na fila da padaria. Presença não se mede no relógio. Se mede na atenção.
E por que é tão difícil? Porque a cabeça é boa em duas coisas: ruminar o que passou e ensaiar o que ainda nem chegou. O único lugar em que ela não gosta de ficar é o agora — que é justamente o único lugar que existe de verdade. O ontem já foi. O amanhã é palpite. O agora é a única coisa que você tem na mão neste exato instante lendo isto.
Ontem à tarde eu vi uma menina pequena, na beira do rio Madeira, tentando fazer uma pedra quicar na água. Errou umas dez vezes. Cada erro era um mundo. Cada tentativa, o universo inteiro. Ela não estava pensando na escola, no jantar, no que a mãe ia falar. Estava ali, com a pedra e a água, e mais nada. Fiquei um tempo olhando com uma inveja mansa daquela concentração.
A gente perde isso crescendo. Aprende a estar em muitos lugares ao mesmo tempo e acaba não estando em nenhum de fato. Chama isso de produtividade. Mas quem responde uma mensagem enquanto conversa com o filho não fez as duas coisas — fez metade de cada.
Dá pra recuperar um pouco? Dá, e não custa dinheiro. Custa deixar o resto esperar por um instante. Quando alguém fala com você, olhar de verdade pra pessoa. Quando come, sentir o gosto. Quando anda, reparar no caminho. Não é misticismo, é só voltar pra dentro do próprio corpo, que já está aqui de qualquer jeito.
O curioso é que ninguém guarda lembrança do dia em que resolveu tudo com a cabeça em outro lugar. A gente guarda os momentos em que estava inteiro: uma risada, um cheiro de chuva, uma mão segurando a nossa. São sempre momentos de presença.
Então a resposta pra pergunta do começo talvez seja esta: a vida não acontece no que você planeja nem no que você lamenta. Acontece nos instantes em que você está de fato onde os seus pés estão.
“A vida acontece nos instantes em que você está de fato onde os seus pés estão.”